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27/09/2008

Les Habits de la Nature

Há encontros fascinantes!_________com jardins na cabeça...

[faça "ver imagem"]


e_____________Lembro-me de G. Llansol


Ouço Hamman perguntar-me com insistência
como foi possível tornar-se morta a língua da
Natureza. Essa língua morreu porque nós já não falávamos
com Ela, ou acontecera que a própria Natureza deixou
de falar? Quando é que o homem, de forma mais capaz,
se julgou forma única e exclusiva?.
Foi um momento funesto, porque na dobra não
reside só o segredo do nosso destino, das forças que nos
reduzem a pó sem nosso consentimento; aí reside igualmente
o segredo da nossa origem, das forças que nos puseram
em movimento, e nos dotaram para a acção. O homem
foi lançado para sonhar esse destino e continuar
o sonho da espécie viva.

Llansol, Finita







Durante 6 anos, Hans Silvester fez um trabalho antropológico e fotografou a tribo do Rio Omo, na Etiópia. A população inteira, desde os mais novos aos mais velhos tem um sentido estético apurado e uma noção de composição absolutamente genial. Através das fotos conseguimos ver a perfeita fusão entre o Homem, a Natureza e a Arte. Eles utilizam os seus corpos como telas em permanente mudança, em constante embelezamento.
Alguns dos livros publicados aqui
Ver Fotografias
Hans Silvester, Les Habits de la Nature / Mais aqui / slide show

17/09/2008

AS PASSAGENS SECRETAS


A navegabilidade é o ofício das mãos, embarcamos em ti,
germinas
e o mel progride pelas sombras do quarto, a roupa nua,
o fogo circular que principia nas nucas –

argila, brisa, pálpebras que soluçam, cortam a neblina, gastam a angústia até ao último centavo,
a frescura dos lenços, o aroma dos pássaros vermelhos,
os pátios e as algas que nos pedem auxílio desde a areia,

vê:

acenam-nos desesperadamente com refúgios.

Corremos pela praia com a nossa nudez porque deixamos algures
os mantimentos escassos de que a nossa tristeza se mantém.

Corremos pela praia e as mãos deslizam para um cobertor lavado
pelo mar, o oiro magnífico, a distância mais curta entre dois pontos.

É noite, e corremos porque o tacto é uma promessa, casam-se os búzios,
conchas azuis habitam o olhar, barcos, homens que bebem a água como se fosse terra,
pequeninas sementes, dissimulam a sede a que deus nos condena.

A respiração avança através de um gladíolo, as mãos encrespam-se de silêncio,
minerais dolorosos asfixiam a noite, riscam como se fossem fósforos as sardas do teu rosto.

Vens com os dentes branquíssimos, o peito aberto aos ninhos,
barco que balouça na névoa, é tecto, casa, cama.

Dar-te-ia a cereja do bolo, a serenidade do mar, uma praia de colmo,
se os dias não fossem transitivos e os objectos íntimos, ó ave, insuportáveis.

Setembro principia com cúmulos no céu, jogos de água,
o inquietante desenho de uma víbora projectado no chão.

Respondes com perguntas às perguntas que faço, reacendes a sede, fumas nervosamente.
A esperança é um ídolo, somos imolados, a espessura do sangue acaba por dizer-nos que é demasiado.

Que cães estabelecem contra nós a aliança feroz que nos persegue?
Que estrela risca os limites possíveis dos nossos pés precários?
Que cortejo é este?

Ainda que a preservação seja um estímulo, e chova, confessamos ou não que temos medo?

As Passagens Secretas. Fragmentos
Amadeu Baptista
Fotografia de Darren Holmes